Capitulo 10- baile...

Sao 4:50h ... tive a escrever até agora --'

mAS amanha recupero ;)

Se quizerem leiam ...

É que este capitulo esta mesmo uma porcaria --'

Eu nao escrevo nada de jeito... eu sei --' 

 

Hoje é Sábado, a noite do baile.

Tinha passado uma semana desde o meu convite ao Ian.

Ele tinha aceite! Para minha felicidade eterna :D

A Cat ia de boleia com o Kyle e o Din com a Miriam.

Nunca mais cheguei a tocar no assunto da ‘perseguição do Ian’. Nunca mais ouve assaltos, nem assassínios. O que era bom, mas eu ainda receava um bocado.

Eu e a Cat tínhamos passado a tarde de sexta-feira a comprar os vestidos e acessórios. 

A Cat adorava compras! Eu já não gostava tanto… mas pronto, tinha de ser. Tinha de ir bonita…

Estava a tomar banho. A Cat já se estava a preparar. É suposto a Cat e o Kyle irem mais cedo, porque a Cat (claro) é uma amiga de uma administradora, e prometeu ir ajudar.

Eu ia com o Ian na moto dele como ele prometeu na noite anterior. A Miriam e o Din iam chegar mais tarde, iam a um bar primeiro.

A Cat ia com um vestido preto, com um bolero com lantejoulas, uma malinha pequenina, umas sabrinas e ainda um colar super interessante (https://1.bp.blogspot.com/_VKZPI0LgC8Q/R17HeEMayBI/AAAAAAAABi8/HGPm2-1j10E/s400/Passagem+de+ano1.jpg)

O meu era á base de cores castanhas, uma pulseira e sandálias rasas douradas e uma mala com os mesmos tons. (https://1.bp.blogspot.com/_VKZPI0LgC8Q/SD_z2KTSCAI/AAAAAAAACRQ/5kQ04P45TiU/s400/look+da+semana+53.jpg)

Já estava pronta…

Eu ia ter agora com o Ian.

A Cat ia-se agora embora.

- Tchau Cat!

- Sabes que hoje vai passar á noite uma estrela cadente?

- A sério? – que interessante, pensei sem entusiasmo.

- Sim… á meia-noite. Vai ser tipo o momento mais emocionante de todos os tempos.

O Din estava no sofá.

- Ai sim miúda?

- Sim… Miudo!!!

- Eu também vou embora, vou ter com o Ian!

- Tenham juízo eu depois vou lá ter com a Miriam…

- Pois … tá! – ele é que precisava de ter juízo com a Miriam. É demasiada areia para o camião dele. Ainda não estava na hora que o Ian disse… mas não queria esperar mais.

Esperei pelo elevador e entrei. Estava agora em frente á porta do Ian.

As poucas luzes que sobraram nos corredores já estavam acesas, deixando o lugar mal iluminado em relação à antes. As pessoas que passavam no corredor ficavam a olhar-me e a perguntar-se o que é que uma rapariga arranjada estava ali a fazer sentada no chão. Depois de um tempo, decidi bater.

O Ian só de roupão abriu a porta. Suspirei.

- Olá Ree! Já está na hora? – perguntou alarmado.

- Não… - é que estava com saudades tuas e decidi vir mais cedo! Não ia dizer isto, claro. Inventei – É que o Din já se foi embora, e não queria ficar sozinha. Posso entrar??

- Não precisavas de  perguntar. – abriu um pouco mais a porta que estava entreaberta porque, provavelmente, não queria aparecer no corredor vestido com um roupão branco. Entrei ainda a mancar, ainda tinha algumas dores normais, e ele reparou. – Estás linda. – Sorriu.

- Obrigada. – Sorri em resposta. Sentei-me no sofá.


- Podes aguardar um minuto? Visto-me rapidinho, estava distraído e esqueci-me da hora.

- Claro. – Dei de ombros. Não me ia fazer mal esperar mais um pouco.

- Se quiseres podes ver televisão. – Riu para mim e eu mostrei a língua. Ele desapareceu no corredor. Eu tinha algum vicio com a televisão especialmente com novelas brasileiras.

Olhei ao redor, a sala estava exactamente igual da ultima vez que lá estive. Mas…Vários papéis estavam espalhados em cima da superfície plana de vidro, uns lápis estavam dispostos em cima das folhas e havia muito pó de borracha. Ian estivera a escrever.

Aproximei-me um pouco, duvidei que fizesse mal se eu lesse algumas linhas. Eram vários papéis, não conseguiria ler tudo, mas acho que ele não se importaria se eu desse uma olhada...


Numa caligrafia bonita, mas forte, era legível:

(...) não poderia mais se conter. Ele cuidadosamente depositou os olhos sobre a carne dela espelhada pela luz da Lua. Era como se ela brilhasse a cada centímetro do corpo, como se fosse luz em essência, como se fosse o pingo no oceano da amargura. Os cabelos castanhos balançavam com o vento em formas bonitas e perfeitas. Ela virou-se encantadoramente para o olhar. Os seus olhos tinham o poder de queimar-lhe, externamente e ainda até o fundo de sua alma, todavia ela não tinha a mínima ideia da força magistral que exercia sobre ele. Era inocente e doce, mas, sem querer, causava-lhe uma dor grave
Ele reparou que ela adormecia aos poucos. Arrastou a cadeira dela e pegou-lhe delicadamente. A respiração dela oferecia-lhe a chave para a sua sobrevivência. Ele não conseguia entender que não deveria tê-la, que não poderia. Por isso, não evitou a aproximação, porque sempre se achara forte o bastante para destruir quem precisasse, mas era fraco e incapaz de fugir dos olhos dela. Fora capturado por onde menos esperava, quebrou as barreiras que nunca imaginara, derreteu o gelo dum lugar que há tempos congelara. Estava completamente viciado nela. E não podia fazer nada.

- Obrigada – murmurou ela. E ele ficou muito mais, como se fosse possivel, apaixonado por ela’

Afastei-me depressa do móvel quando escutei um barulho. Sentei-me novamente no sofá da sala e fingi nunca ter lido o que li

Fiquei a pensar no que tinha lido, algumas palavras dançavam na minha cabeça. Queria muito aproximar-me novamente da escrivaninha e ler mais um pouco, mas Ian deveria voltar a qualquer momento.

Para alguém que dizia não ter sentimentos suficiente para escrever poesia, aquilo pareceu-me muito mais que o bastante. Aliás, ali não havia nada de acção ou terror como ele tinha dito que escrevia. As palavras eram bonitas e calorosas demais para alguém que afirmava ser frio e sanguinário..
Ian conseguia encantar-me mais a cada vez que respirava.


- Tudo bem? – Não percebi que ele estava sentado no mesmo sofá que eu a escassos centímetros de mim.


- Sim. – Respondi desajeitada. Talvez ele percebesse que eu tinha lido o que ele tinha escrito.


- Vamos? – Estendeu a mão forte para mim, comigo ainda sentada.

Achei que era impossível, mas estava ainda mais bonito que o normal. Vestia umas calças jeans escuras e uma camisa bege. A única coisa que não arranjara fora o cabelo preto meio rebelde que estava ainda molhado. Mas eu sabia que ele gostava dele assim. E, aliás, eu também gostava.

- Vamos. – Segurei em sua mão e levantei-me batendo de leve nele. Estava com um cheiro incrível.

- Aonde foste ontem à noite ?- perguntei quando ele fechava a porta. Pois é… ele ontem á noite estava em minha casa e assim do nada saiu á pressa.

Ele suspirou.

- Andas-me a vigiar?

- Sim. – Levantei as sobrancelhas indicando que estava a falar a sério.
Eu tinha medo. Muito medo de que acontecesse alguma coisa com ele. E se ele mor… esqueci essa linha de pensamento, fazia-me sofrer.


- Nunca te disseram que és muito mandona? – Perguntou enquanto parava, virou-se para mim no corredor, e mexeu nos meus cabelos que estavam bonitos naquela noite.

- Já, mas isso não muda nada. – Sorri com desdém.

- Não queria que mudasse. – Sorriu e piscou o olho. Eu cruzei os braços. Ele não iria mesmo contar onde estivera ontem à noite …conclui desanimada

Chegamos ao estacionamento, que era subterrâneo. Ian ajudou-me a caminhar pela brita do chão. Avistei o seu carro ao longe.

- Chegamos. – Disse de repente.

Os meus olhos arregalaram-se ao me deparar com a moto mais bonita que eu já tinha visto. Eu não entendo nada de motos, mas tinha certeza de que aquela era uma das mais bonitas que existiam. Toda preta com detalhes prateados e alguns desenhos tribais, era linda.

- Meu Deus.... – murmurei para mim propria e não precisei de dizer mais nada, a minha expressão facial dizia tudo.

- Demais, não é? – Sorriu e ficou bastante animado ao ver que eu tinha gostado. – É uma Senna F4... – Ele começou a explicar, mas viu a minha expressão de quem não entendia nada. – Alguns detalhes modificados.

- Tu sabes mexer nessas coisas?

- Além de saber conduzir? Não muito. Quer dizer que mandei fazer algumas... Modificações. – Sorriu maliciosamente.

- Óptimo.

- Deixa me por te em cima dela.

- Não prec...

Antes que eu pudesse terminar ele já estava me estava a carregar e a colocar-me na moto. Senti que ele não tinha muito controlo da força, e senti um baque quando ele me sentou

- Maguaste-te?

- Não...

- Desculpa, pequena. És muito frágil.

Frágil? Frágil? Não sei o porquê, mas esse adjetivo ofendeu-me um pouco. Eu sou uma mulher forte, ou pelo menos era assim que eu me via. Perdi os meus pais cedo e coisa que não era era frácil. E então pequena é que não era mesmo. A minha altura falava por si


- Não sou frágil, muito menos pequena.

- Desculpa. Eu sei que não és. – Sorriu enquanto subia à minha frente. Ficou um pouco apertado, Ian tinha um corpo robusto. – Eu quiz dizer que ás vezes não sei controlar a força sobre ti...

- Nunca te disseram o quanto tu és chato?

- Não, mas isso também não muda nada. – Sorriu abertamente, pude ver pelo retrovisor.

- Vamos?

- Ainda não... – Virou a cabeça para trás e sorriu. – Segurança, lembras-te? – Tirou um capacete que estava amarrado á moto e entregou-me. Era da Hello Kitty.

- Não tem graça. – Mostrei a língua e ele riu de novo.

- O que foi? Comprei para ti!

- Foi isso que foste fazer ontem á noite? – Perguntei enquanto colocava o capacete cor-de-rosa chiclete. Esta cor não combinava comigo.

- Em parte. – Sorriu antes de por um capacete preto na própria cabeça.

Acelerou e a moto fez um barulho muito animador. Saímos andando pelas ruas da cidade que, apesar de ser noite, estava bastante cheia. As luzes dos semáforos, dos postes, dos letreiros e das vitrines das lojas davam um ar bonito ao local.

- Segura-te a mim. – Ouvir a voz um pouco abafada à minha frente. Só então percebi que estava tão atenta a olhar em redor que não me estava a agarrar – Mais forte. – A verdade é que eu estava um pouco envergonhada por estar a segurar-me no seu peito liso e marcado. Corei e agradeci por ter aquela coisa cor-de-rosa na cabeça.


Viajamos por volta de meia hora. E por fim chegamos á casa de praia onde ia ser o baile. O Ian memorizara o endereço e soube chegar lá mais rápido do que o normal e sem se perder, usando os mais diversos tipos de atalho. Ao que pude perceber, ele conhecia muito bem as ruas e avenidas da cidade.

Foi divertido andar de moto, definitivamente seria melhor se eu não estivesse a usar um capacete, mas mesmo assim a sensação de liberdade era maior do que quando se andava de carro. Era um bocado assustador, mas pensei ‘Quem é a estúpida que em vez de estar a aproveitar a sensação, está-se a preocupar?’ hoje não me vou preocupar, decidi
Há poucos dias chovera e, agora, o clima estava ameno. Calor secante acompanhados por uma leve brisa nocturna.

Quando chegamos perto do mar o vento estava mais forte. Retirei o capacete e os meus cabelos voaram para o lado.

Ian estacionara próximo de uma árvore muito grande ao lado da casa de praia que era isolada na rua e que tinha alguns enfeites mal feitos pendurados na entrada.

As luzes lá dentro estavam acesas e ouvi uma musica alta.
Senti o meu telemóvel vibrar na carteira. Tinha-o colocado no silencioso para não atrapalhar eventuais conversas que poderiam acontecer. Enquanto Ian olhava ao redor com uma expressão engraçada, aproveitei para ver discretamente o motivo da vibração.

2 mensagens recebidas.


então?! Onde estás? Já cheguei á que tempos!
O que é que Tu e o Ian resolveram fazer pelo caminho?
Minha putinha.
Vem já para cá…

Ass: Cat.


Franzi a testa quando li a mensagem da Cat que recebi meia hora atrás e não me percebera porque estava ocupada demais a aproveitar o passeio de moto. É incrível como ela não pára de ser tarada nem um minuto.

Abri o a outra mensagem.


Eu e a Miriam estamos num bar como te disse.

Chegarei antes da meia-noite.

Beijos e Cuidado

Ass: Din


Sorri aliviada pelo Din estar-se a divertir.


- Vamos entrar? – Perguntei ao Ian que ainda estava a olhar tudo com muita curiosidade.
- Claro. – Ele foi ao meu lado e pegou na minha mão enquanto toquei á campainha.


Uma loira alta (ainda mais alta que eu, mas muito mais magra) com os olhos azuis grandes demais para o tamanho do rosto abriu a porta. Vestia um curtíssimo vestido cor-de-rosa chiclete e sandálias brancas de salto alto. Se ela não fosse tão magra seria a versão humana do meu capacete. Mostrou os dentes muito brancos quando nos viu.

- Bequinha, querida! – Apertou os braços e deu-me um beijinho em cada lado do rosto. Não entendi essa reacção da Patrícia, ela costumava, felizmente, poupar-me a este fingimento todo.

- Ola. – Respondi a afastar-me. Não tenho vocação para actriz, só estava a querer ser educada.


Ela ficou lá na porta, atrapalhando o caminho e sorrindo para o Ian. Depois lançou-me olhares insistentes, que ignorei.


- E então? Quem é o seu amigo?

Filha da Puta.

- Ian, Patrícia. Patrícia, Ian. Agora podemos entrar?

Ela saiu da frente com uma cara de poucos amigos. Ian sorriu e colocou os ombros para trás.

- Ficas muito bonita quando ficas com ciúmes. – Sussurrou ao meu ouvido quando, puxado por mim, entrou na casa.

Era um lugar potencialmente bonito com uma mobília de praia praticamente toda feita de algum material que imitava bambu muito bem. A sala abria dois corredores nas laterais e, no lado oposto à porta de entrada, havia uma porta de vidro que dava para o jardim, onde estavam todas as outras pessoas.

O jardim tinha algumas árvores grandes onde redes confortáveis estavam penduradas e terminava na areia da praia que rugia à noite. Havia alguns garçons vestidos com o tema praia e colares havaianos pendurados no pescoço servindo drinques coloridos enfeitados com guarda-chuvinhas e frutas diversas. Alguém tivera a ideia de fazer uma pequena fogueira na praia e algumas pessoas estavam a conversar e a tocar viola á volta . Outros convidados estavam a dançar debaixo das luzes picantes instaladas próximas à varanda onde um DJ escolhia músicas animadas.

Os mais atrevidos estavam a molhar os pés na água. A lua estava bonita e reflectia-se nas águas escuras e limpas. Ian pareceu gostar de toda esta visão.

Senti uma mão fria a puxar-me para o outro lado.

- Onde estavas? – Disse a Cat, já com um copo com uma bebida verde na mão.


- Já a beber?

- Isto não tem álcool! – Respondeu dando mais um gole na bebida e comeu uma cereja que estava presa num palitinho.

- Ree, o que é que queres... – Ian, que antes estava de costas para nós, parou de falar quando se virou e viu a Cat a conversar comigo. – Oi. – Disse a sorrir e acenou com a cabeça.

- Oi! Olha Ian, o Kyle quer falar contigo… ele está ali.- e acenou com a cabeça- Vai lá enquanto vamos á casa de banho.

 

- Sim… eu vou. Ficas bem? – perguntou e lançou-me um olhar penetrante.

 

- Com a Cat nunca sei se estou bem – e olhei para ela com um olhar maroto – Mas sim fico bem. Eu depois vou ter contigo, está bem?

 

- Está bem! e sorriu com os dentes brancos a luzirem.

 

Fomos á casa de banho estávamos a retucar a maquilhagem quando a Cat falou:

 

- E então? Isso com o Ian é sério?

 

- Não sei…

 

- Estás apaixonada e isso vê-se…

 

- Eu gosto muito dele... – Temia em usar a palavra “apaixonada”, todas as vezes em que achei que estivera assim fora um desastre. Um calor que passava rápido demais e depois uma insensibilidade que só terminava quando o relacionamento estava ao seu fim. – Não quero estragar as coisas…


- Não vais estragar. Às vezes eu tenho a impressão de que tu ficas com tanto medo acabas a estragar tudo. Deixa o medo para trás Rebecca. – Não olhou para mim enquanto disse estas palavras, ainda estava concentrada na tarefa de ajeitar cada fio de cabelo. – Está na cara que ele te faz bem, até a tua aparência mudou. – riu consigo mesma.

- Cat, acreditas no amor? – Foi a primeira vez que me ocorreu esta pergunta. Ela está sempre a dar-me estes conselhos de perder o medo e me deixar levar completamente por um relacionamento, mas não é o que podemos de chamar de uma pessoa de confiança nesse assunto. Quero dizer, Cat sempre estava com alguém, mas esse alguém nunca durava mais que duas semanas.

- Um pouco. Mas acho que ainda não foi tocada pelo bichinho do amor. Ás vezes acho que é só ilusão, conveniência, não sei.

- Hum. – Fiquei pensativa. Será mesmo que as pessoas só se juntam e sentem algo por pessoas que não são familiares por conveniência ou proteção? – E como está indo com o Thiago? – O mais recente namorado… por isso é que o par dela esta noite não é o Kyle.Mas o Kyle veio na mesma.

- Bem, acho. Ela estava a falar com os amigos e deixou-me sozinha. Ainda bem que tu chegas-te.

 

Saimos da casa de banho e fomos ter com o Sam, que estava com  o Kyle, Din e Jorge ( o namorado da Inês e melhor amigo do Din)

Sam percebeu e veio até mim.

- Tudo bem?

- Uhum.

- Queres sentar?

- Pode ser.

Procuramos um lugar mais calmo para sentarmos e conversarmos.

Escolhemos um lugar atrás de uma rocha enorme, na praia que nos escondia do resto da festa, não havia mais nada lá que nos interessava.

Tirei as sandálias por causa da areia.

- Estás com frio? – Perguntou ao sentar-se na areia fina ao meu lado.

- Não.

- Toma. – Tirou o casaco e a atirou para mim, eu vesti, estava mesmo com frio.

- Obrigada.

Ficamos um tempo a olharmo-nos e a ouvir o barulho das ondas. A maior parte das nossas não conversas era assim. Ian e eu não precisávamos de palavras para comunicar-mos. Eu sabia que ele estava a sentir o mesmo que eu, que compartilhava este sentimento que rasga e queima assim como eu. Um gosto amargo e, ao mesmo tempo, doce que não vai embora. Sabíamos que não deveríamos ter nada, seria mais difícil para nós dois, mais doloroso, mais perigoso... Mas não parava de crescer.

- Tu não precisas de estar comigo por pena.

- O quê? – Apanhei um susto.

- Ree, vamos ser realistas. Isto está a ficar perigoso demais e, além de tudo, está confuso demais. É muito para a tua cabeça lidar com assassinos que não tem medo nem pena de matar. Não é fácil para uma pessoa lidar com este perigo constante. Não é justo que eu te faça passar por isso.

- Mas…- ele não me deixou terminar

- Eu percebo se tu te quiseres afastar. Acho que nunca fui tão próximo de alguém, tirando o Kyle e Mi. O que quero dizer é que compreendo que tens medo e te queres afastar.

 

- Não estás a perceber. Eu não me quero afastar. E não vou…

 

- Tu és tão inocente. Não estás a levar todas as possibilidades.

- Tu subestimas-me Ian! – E agora era eu que iria falar – Sim. Sim eu tenho medo. Sim tenho receio. Tenho medo de sair á rua, porque sinto sempre que estou a ser seguida. Tenho medo pelo meu Imão. Tenho medo pela Cat. A Cat nem desconfia de nada… Tenho muito medo mesmo… Pensar que existem pessoas que me querem fazer aos pedacinhos não facilita o sono á noite. Tenho pesadelos constantemente e não me parece que vão passar tão cedo.

 


- É ai que eu que eu quero chegar Ree.. – Tentou me interromper, mas, agora que eu começara, eu iria até o fim.

- Mas ainda sim, Ian, enfrentado esta dor dor e este medo que me faz sangrar sem ter ferida, nada disso supera o que eu teria que passar se eu não te tivesse por perto.

Agora estava com lágrimas nos olhos. Pela primeira vez ele desviou o olhar do oceano e olhou-me. Estava muito sério e, ao mesmo tempo, aflito.


É praticamente impossível ter uma pessoa que é perseguida de morte. Pior, ter uma pessoa que matou e mata quem lhe quer matar. Eu tinha plena consciência disso, mas o cérebro esqueceu-se de avisar o coração, que palpitava de maneira frenética a cada vez que o via.


- Eu não queria fazer isto contigo – Disse ele por fim

- Não é mau de todo – Tentei conter as lágrimas que insistiam em escorregar pela minha face – Eu não sei se isso é o que vou sentir para sempre. Comigo as coisas são passageiras, mas tu tiraste-me do meu estado morta-viva, Ian.


- O que queres dizer?

- Da mesma forma que é terrível aguentar o medo e a dor que tenho sentindo nestes últimos dias, é péssimo viver sem sentir que se vive. A comida não tem sabor, a música não tem sentido, o mundo é preto e branco. É como se eu vivesse e não tivesse a mínima ideia de que estava viva. Não sentir é pior do que sentir, Ian.

- Mas tu agora sofres.

- Mas o sofrimento faz-me humana.

- Eu não quero que tu te sintas assim Ree. Nunca mais. – Ele aproximou-se um pouco de onde eu estava sentada – E a culpa disto é minha. Quando soube que podias estar em perigo aproximei-me de ti e senti-me inteiro. – Olhou para areia como se estivesse a penalizar. – E eu fui egoísta. Eu sabia que não te deveria envolver, eu sabia que ias acabar por te sentires assim. Quando vi a chance de capturar o invasor e descobrir uma pista, qualquer coisa que me levasse ao meu objectivo mortal. Não pensei duas vezes em invadir a tua casa, pensei que seria só isso e nada mais.

Não era reconfortante saber que para eu para ele fui, realmente, um erro. Um plano que não resultou e agora ele só se sentia mal por eu sentir algo que não deveria estar a sentir. Isso doía-me como se uma faca estivesse cravada no meu peito..

- O que é que te fez mudar de ideias? – Perguntei já sem vida, agora sim chorava silenciosamente.

- Não aguentei ver-te caída no chão, foi mais forte do que eu. Foi naquela noite, Ree, que eu descobri o meu primeiro ponto fraco

- Desculpa-me se sou um ponto fraco para ti... Um erro. – Disse seriamente.


- Tu não entendes, pois nao? – Apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça baixa sobre as mãos. – Tu és o meu ponto fraco, Ree. Á muito tempo que o meu objectivo de vida é só um. E o que eu sinto não entra nesse objectivo.


- E o que sentes? –Voltei a mexer com as pedrinhas na areia.

- Sempre senti que era forte demais, que era capaz de tudo, que não tinha medo, até o momento em que fui teimoso o bastante para me aproximar. Então encontrei-te. Pensei que conseguia desafiar a todos, mas não consigo desafiá-te. Nem sequer consigo pensar no que eu deveria estar a fazer, nas pessoas que eu deveria estar a matar, porque tu me impedes. Agora sou incapaz de pensar noutro propósito se não TU. Eu sinto-me fraco e inútil..

- Não precisas de me dizer na cara que eu te faço mal Ian. – Disse decidida e levantei-me. Já tinha ouvido demais por hoje. – Não sou eu que estou a afastar-te Ian.


- Eu ainda não acabei. – Levantou-se também.

- Não quero acabar de ouvir. Tu achas que não basta saber que o que eu sinto está-me a destruir? Agora também tenho de ouvir que também te está a destruir a ti? – Senti o vento a fazer voar os meus cabelos e comecei a tirar o casaco que ele me emprestara.


- Estas a tirar a conclusão errada, Ree.

- O que queres que eu pense? “Que fixe! Estou a destroçar-me a mim mesma e é pessoa que eu am... “ – atirei-lhe o casaco e ele apanhou-o

- O que é que ias dizer?

- Não importa. – Baixei-me e apanhei a minha mala e as sandálias.

- Eu gosto, Ree. – Gritou ao longe, nas minhas costas e eu parei de andar. – Eu gosto de não pensar noutra coisa, gosto de me desviar do meu objectivo de vida, gosto da maneira como tu me destróis, gosto de me sentir indefeso perto de ti, gosto do teu perfume, gosto de quando tu ris a assistir á novela, gosto de quando falas do meu cabelo, gosto quando dizes que não te importas com o que os outros dizem do teu estilo, gosto de quando me começas a dar ordens, gosto de como pronuncias o meu nome, gosto do teu quarto desarrumado e gosto da maneira como te preocupas com os teus vizinhos e com os animais deles, gosto quando te desligas do mundo e ficas a reflectir sozinha coisas que, muitas vezes ninguém, repara. Eu não deveria gostar de nada disso, Rebecca, mas eu gosto e isso é a minha pior fraqueza – respirou fundo – e a maneira como não consigo parar de gostar. E eu sei que eu não tenho sensibilidade nem jeito com as palavras, e sei que te magoei. Mas é melhor não te ires embora assim, porque aí sim, me magoarás.

Fiquei parada onde estava, não tive coragem de me virar. Achei que era firme o bastante para isso, mas não era, afinal de contas. Não me poderia mexer depois de ouvir aquilo tudo, não poderia pensar. Estava, ao mesmo tempo, aflita com medo que ele pensa-se que eu não sentia nada.

Ele tocou no meu ombro devagar, e eu protegi o rosto com as mãos. Não queria ver aquela nova realidade. Comei a baloiçar a cabeça, a negar tudo e ele abraço-me. Acho que todas as pessoas sonham em, algum dia, ter alguém para amar para sempre, mas não sobre essas circunstâncias obscuras que nos rodeavam. Eu queria e não queria. A razão dizia que não e o sentimento gritava que SIM. Acredito que esta é a grande diferença entre os dois, a razão dá-te a escolha, o sentimento não.

Deixei-me desabar nos seus braços quentes. Chorei por indeterminados minutos, tentei negar toda a parte sombria da situação, tentei imaginar como seria se as coisas fossem mais fáceis.Se não estivéssemos a ser perseguidos, se não nos quisessem matar, se ele não tivesse aquele ódio de morte…

Ele abraçou-me mais forte e ficou ali, quase imóvel, acariciando os meus cabelos que brilhavam sob a Lua. Ian entendia-me, no fim de contas. Compartilhava a dor intensa entre o errado e o amável. Mesmo a dizer ser um gelo de pessoa, estava ali, a sentir as milhares de facas que nos tentavam separar. Naquele momento, eu e ele éramos dois seres diferentes que partilhavam o mesmo patamar, portanto éramos um só.

Ele encostou a cabeça na minha e senti a sua respiraçao. Senti que as lágrimas cessaram, finalmente entendi que que talvez fosse menos árduo se nos apoiássemos um no outro. Ele percebeu que eu deixara de chorar e levantou-me o rosto com o dedo no meu queixo. Ainda abraçando-me, passou os dedos sobre a minha pele pálida para secar as minhas últimas lágrimas. Usou o polegar para acariciar os meus lábios com o máximo de delicadeza que conseguiu e contemplou os meus olhos por um momento.

No seu olhar pude ver que sua dor de poder estar cometendo um erro fatal não era menor do que a minha. A dor da possibilidade de tudo dar mal e a historia terminar sem uma personagem. Mas, naquele momento fiz o que a Cat sempre me aconselhara a fazer: parei de pensar em tudo isso e concentrei-me, não na lista de problemas, mas na pessoa incrível que estava ali comigo.

O nosso beijo foi indescritível. Uma mistura de mágoa, felicidade, amor, e todas as centenas de sentimentos que nos inundavam naquele momento. Não foi um beijo tranquilo ou suave, foi forte e urgente, como se fosse o último. Como se nunca mais poderíamos ter um momento como aquele. Eu esmagava os meus lábios fortemente contra os dele porque há muito eu esperava por aquele momento: o momento em que eu sentiria algo verdadeiro por alguém. Aquele momento.

Quando o ar finalmente fez falta e paramos de nos beijarmos, os olhos não se cansaram. Por instinto, olhei brevemente para cima a tempo de ver uma faixa luminosa a passar no céu rapidamente sobre as nossas cabeças. A Cat tinha razão, era o momento mais emocionante de todos os tempos.

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publicado por RiiBaptista às 04:42 | link do post | comentar