19º Capitulo - Morta!

Aqui esta mais um capitulo!

espero que gostem e amei escrever este capitulo

espero que gostem!

Fica aqui esta musica... foi com ela que escrevi o capitulo! :)


 

 

Eu não estava anestesiada. A dor era cega e real. Tortura que ardia, mas não matava. Assemelhava-se mais a uma piada de mau gosto: pica, mas não fura; arranca, mas não deixa ir embora. O sofrimento vinha em ondas. E, embora não estivesse sob efeito de anestesia, era assim que me sentia na maior parte do tempo.

Não conseguia mais sentir gosto da comida, o prazer na música, o calor no toque dos amigos. Talvez eu já não estivesse a viver. As outras pessoas eram cápsulas de alegria, sentimento, emoção. Eu estava vazia. Era tudo a preto e branco. Era tudo igual.


Naquele dia nublado igual ao meu interior, eu fazia desenhos no vidro embaciado da janela. Deveria ter chovido durante a manha, não sei. O sono estava a colaborar comigo muitas vezes e eu agradecia ás vezes por isso. Digo ‘as vezes’ porque eram inevitáveis os pesadelos.


Encarei o desenho que tinha acabado de deixar na janela, era uma foice. Usei a palma da mão para tirá-la de lá. Eu não estava em perigo. Deveria parar de imaginar que sim. Agora estava tudo esclarecido: Ian invadiu o meu apartamento pela exterior, bagunçou as nossas coisas, perseguiu-nos, e colocou-nos em risco. Não havia mais ninguém a querer fazer-me mal. Foi Tudo milimetricamente calculado e inventado por ele, mas agora ele sabia que eu sabia a verdade.

 


Vi umas árvores, o condomínio onde eu morava estava cheio delas. Malditas árvores e as suas folhas verdes. O verde era simplesmente estúpido, a cor mais estúpida já inventada. O meu desejo era que todas as cores se esvaíssem subitamente, o mundo ficaria a oscilar entre o preto e o branco, passando pelo cinza. As cores idiotas deveriam desaparecer, principalmente o verde. Não aguentei estar ali especada a olhar para aquelas cores estúpidas.


Era a primeira vez desde aquele dia que me dei conta da actual situação do meu quarto. Estava mais desarrumado do que o costume. Além das coisas espalhadas em cima dos móveis, notei que agora também estavam algumas coisas no chão e no tapete.

 

Virei-me e vi-me ao espelho. Eu parecia um lixo. Eu estava um lixo.
Os caracóis em vez de estarem brilhantes estavam secas e desarrumados. A cara tinha marcas dos lençóis e umas olheiras horríveis. Pareciam que tinha envelhecido décadas naqueles dias. Estava com uns calções brancos e uma t-shirt preta velha. Que se dane, pensei.

 

Tempo. Afinal quanto tempo é que tinha passado desda nossa ultima conversa? Horas, dias, meses?

 

Ultimamente, estava a contar o tempo como os antigos: sabia que era dia porque via o sol. Peguei no telemóvel e reparei que era Sábado, ou seja, não tinha de faltar á faculdade. Faculdade! Estava quase a entrar de ferias… o que é Muito bom!

 

Ainda não tinha contado a ninguém o que se sucedera. Já tinha mandado embora a Cat e o Din as vezes suficientes para eles saberem que eu não voltaria ao normal rapidamente.

Mas…para que contar a alguém? Como é alguém tinha a coragem de me dizer para não ficar destruída? Como é que que eram capazes de me dizer para ignorar os problemas quando nem sequer sabem quais são? Quero dizer, eu não iam simplesmente fingir que estava bem e andar com um sorriso falso na cara. Simplesmente não ia.


Reparei também na existência de varias mensagens e chamadas não atendidas, não quis saber de nenhuma delas.

Decidi ir á cozinha comer qualquer coisa. Há quanto tempo é que não como uma refeição em condições?

Saiu do quarto pé ante pé, mas relaxo mais quando me apercebo que não esta ninguém em casa.

Pego num iogurte e sento-me no sofá da sala.

E por momentos imaginei como seria, se o Ian não tivesse a sede de vingança e a vontade de me matar.


Seríamos um casal. Casados, de mãos dadas e felizes a observar o mar. Eu com uma criança ao colo, esperava que fosse um menino. Se ele tivesse sorte, teria os grandes olhos verdes do pai, gostaria de ser empurrado por ele no balanço e comeria gelado de cereja ao sair da praia E, ao por do sol, nós três sentaríamos na areia, observaríamos a grande massa de fogo a desaparecer na linha que separa o céu e o mar e, por fim, as estrelas nos dariam um show de brilho. O segredo mais bonito e único da noite. E mesmo sendo tão pequenos quanto os grãos da areia branca para o universo, seríamos grãos de areia exalando felicidade aos astros. Minúsculos e felizes.

E lágrimas traidoras molhavam o meu rosto a cada vez que eu criava uma nova cena. Era só o resultado das ondas de sofrimento. De repente, mudava do ”não sentir” para o “sentir demais”, e o que eu estava a “sentir demais” agora era o pesar do que poderia ter sido e não foi. O mais angustiante era não saber até quando me sentiria assim.


- Rebecca? – pergunta-me uma voz mansa - Tas a chorar?

Afinal não estava sozinha. Din tinha acabado de chegar. E estava debruçado a tocar-me no cabelo.

E aqui, fui a pessoa mais estúpida do mundo.

- DEIXA-ME OK? DEIXEM-ME TODOS EM PAZ!!

Gritei como acho que nunca gritei na minha vida. Provavelmente teria-se ouvido em todo o prédio. Levantei-me e corri para o meu quarto, para depois fechar a porta com um estrondo.

 

Ouvi uma campainha.

- Ian? Tudo bem?

Estava a ouvir as vozes muitos baixas , mas dava para entender.

- Esta tudo bem? Ouvi gritos. – aquela voz estremecia-me. Fazia-me doer a cabeça e, ainda mais difícil de suportar, o coração.

- Sim, esta tudo bem. Eu é que não sei o que passa com a Ree…

Mesmo não ouvindo sabia que Din suspirava. Eu sei que ele sofria por mim. Eu sei que ele me amava.

Fez-se um silencio

- Entao… a Ree esta?

- Sim esta. Porque?

- Posso ir ve-la?

- Sim, mas ela não tem estado nada bem…

 

Senti uns passos na direcção do meu quarto. Sabia que ele vinha ai.

Virei-me para a esquerda de modo a ficar de costa para ele quando entrasse. Fixei um ponto qualquer e prometi a mim mesma que não desviaria os olhos daquele mesmo ponto. Não o queria ver, muito menos falar com ele.

Ele bateu á porta, mas entrou sem esperar.

Senti que se surpreendeu por me ver assim.

Fez uma pausa a avaliar-me e sentou-se numa borda da cama.

- A Rebecca que eu conheci não era assim. – murmurou com uma voz rouca – A Rebecca que eu conheci teria enfrentado os problemas. A Rebecca que eu conheci era lutadora e incapaz de ficar num quarto fechada praticamente duas semanas seguidas. Essa foi a Rebecca pela qual me apaixonei.

Interrompi, antes que ele dissesse mais alguma coisa. Não estava para ouvir mais. Não aguentava ouvir mais.

 

- A Rebecca que tu conheces-te, está morta! – disse eu com magoa na voz, e praticamente a chorar.

 

- A Rebecca que eu conheci nunca morreria…

 

- Nunca digas nunca…

 

Nunca desviei o meu olhar daquele ponto inicial. Não iria olhar para ele.

 

Ele levantou-se devagar e saiu. Ouviu a despedir-se de Din.

 

 

Deixei-me estar em estado de dormência, ate que me apetece ir dar uma volta a pé. Talvez me faça bem.

Vesti umas calças de ganga e um casaco de treino com capuz. Atei o cabelo e calcei uns ténis.

Não encontrei Din quando ia a sair de casa, provavelmente estava no quarto.

 

Sai do prédio o mais rápido possível, quase tropeçando nas escadas.

Não sei quanto tempo é que andei, nem onde estava.

Só me dei verdadeiramente conta de onde me encontrava quando começou a chover. Sentei-me num banco de jardim, enquanto a chuva essa se tornava mais forte.

 

Conseguia sentir a agua a passar pela minha roupa e a  chegar-me á pela,  provocando-me arrepios.

Chorava. Agora chorava com toda a força.

Sentia-me a tremer e incapaz de reagir. Era como se eu não estivesse ali, como se alguma vez a minha alma pode-se largar o corpo e deixa-lo ali, vazio.

Não queria saber.

 

Ouvi um apito de um carro que parou á minha frente. Abriu-se um vidro. E vi uma cara.

Demorei alguns segundos a aperceber-me de quem era.

Era Kyle.

 

- Ree? – perguntou ele preocupado ainda dentro do carro. Rapidamente saiu e foi ter comigo. Tirou o casaco e pôs-mo por cima dos ombros.

- Oh miúda! Como tu estas… - sussurrou para si mesmo…

Ajudou-me a levantar e a sentar-me no carro.

Entrou no carro e ligou o motor. Não estremeci com o barulho.

- Ree? Estas bem? – perguntou ele dirigindo-se a mim. Não lhe respondi porque na verdade não conseguia. Sentia os lábios roxos e o corpo era percorrido por uma dor cortante. Frio.

 

Aninhei-me, abraçando as pernas com os baços em cima do Banco e encostando a cabeça ao Vidro.

Reparei que ele marcava o nº de alguém no telemóvel.

 

- Ian?

Aquele nome sim fez-me estremecer. Encostei mais a cara ao vidro frio.

- Olha eu encontrei a Ree…

- Estava num banco de jardim e ela não esta a …. Reagir.

- Ok! Ate já!

 

Depois, sem mais nem menos, Kyle começou a falar para mim, como se eu lhe correspondem-se

 

- A Cat telefonou-me preocupada. Parece que não apareces em casa á algumas horas.

Horas? Como podiam ser horas? Não estive fora tanto tempo, ou estive?

 

- Não sei o que se passou, mas seja o que for não te podes deixar abater assim. A vida é uma sequencia de facto que tem de ser vividos. E tu… não estas a viver. Há quanto tempo não sais de casa? Onze, Doze dias?

 

Não fazia ideia que tinha sido tanto tempo.

 

- E a faculdade? E o teu sonho de ser jornalista? Não podes desistir assim.

 

Estaria eu a desistir ou simplesmente a recompor-me? Desistir, eu sabia disso. Estava a ser o meu fim.

Eu só disse uma coisa:

 

- Para mim, acabou! – disse baixinho e com a voz rouca, mas com a certeza de que ele ouviu.

 

 

 

 

 

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publicado por RiiBaptista às 05:35 | link do post